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Para Quem Tem Um Corpo

Os últimos meses têm sido particularmente duros para todos nós. Dançar em permanência em frente a um ecrã traduz, por um lado, uma relação necessária e simbiótica que temos com o nosso corpo mas também, por outro, uma descoberta à busca de outras formas de fazer dança, não a dança que nos habituámos a fazer mas a dança que nos nasce desta necessidade de sairmos de nós próprios.

Procurámos por vós nestes ecrãs frios, e o nosso corpo conserva a memória do que foram estados psicológicos de sofrimento e ansiedade. Procurámos por vós nos duros momentos em que vos esperávamos para uma conversa no Zoom, e agimos instintivamente no desenho de estratégias que limitassem o profundo sentimento de perda quando nos confrontávamos com a inevitável impermanência do aluno, do nosso amigo, da nossa razão de ser.

Exigimo-nos um trabalho metódico, em contraciclo com o que é até a nossa natureza artística, no resgate das evidências que materializassem os fundamentos para os passos que, altruística e genuinamente, demos em sinal de missão, paixão… mas também protesto, pela rapidez com que por vezes sentimos que todo o esforço de uma vida se desintegra nas nossas mãos.

Não perdemos contudo a autoconsciência identitária, a noção do que somos, do que fazemos e porque o fazemos. Sabemos que até a nossa mente, instrumentalizada pela razão, começou a formar-se através das experiências do corpo, através do toque, das experiências afectivas que se desenvolvem desde tenra idade, mas que tantas vezes obliteramos em função de uma lógica puramente impressa em palavras, na ditadura do racionalismo da mente pela mente ou da emoção inscrita na imagem, que supostamente diz tudo! E onde está o corpo real nisto tudo, para além daquela imagem bonita e sedutora que circula na rede e nos instiga à bolha de quem é visto à distância?

Abertos a uma nova escuta, à escuta da corporalidade e desse encontro que nos exige procurar a sua linguagem, queremos ir além dos corpos à superfície e propor uma plenitude, um corpo pleno e desperto para as diversas camadas de envolvimento que este pode conceber. Queremos o reencontro, perturbar a voracidade do corpo sem a domesticar nem descontextualizar. Queremos a linha que não separa, o espaço que não distancia, a voz que não sussura mas que vocifera de coragem, alegria e determinação. Queremos de novo que nos toquem, que nos abracem, que possamos estar todos para além do medo e da culpa, de volta ao corpo que é nosso, mas que se ausentou de sentido.

Vamos voltar, é bonito dizer… vamos regressar, é lindo de ouvir… mas são palavras. É nessa relação entre nós e o nosso corpo que nos descobriremos em retornos de nós próprios, perante a repressão que se fixou em tudo o que foram os estados corporalizados na mente de quem viveu, intensamente, este último ano, sabendo certamente que nesses regressos não seremos de forma alguma quem éramos!

André Marques
Dancenter Dancenter Clube de Danças Sociais

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