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O Regresso

Olá a todos,

Escrevemos com a confiança que precisamos todos ter para superar o distanciamento e promover, com as devidas precauções, a presença.
Num primeiro momento quisemos estar presentes, com o fulgor de quem procura compensar o peso da situação com o melhor que temos para vos dar: – a nossa Arte.
Numa segunda fase quisemos criar as pontes necessárias à prossecução da nossa Missão, alocando ainda mais recursos de tempo, conhecimento e tecnologia para facilitar o processo de aprendizagem e partilha que é a Dança, seja ao nível Técnico, Físico, Social ou Humano.
Vivemos agora um momento em que estamos todos mais atentos ao outro; mais pessoas se cumprimentam nas ruas; mais sensibilidade à flor da pele para as questões fundamentais da vida; mais desafios na busca dos equilíbrios que todos procuramos para a existência, Feliz e Despreocupada que, sem realmente saber, tínhamos e pouco valorizávamos.
É com esperança e determinação que olhamos os próximos passos, que naturalmente se aproximam e cruzam com as expectativas de todos os que nos fazem sentir essenciais para as suas vidas e existências, como se de água para a sede se tratasse. Faremos naturalmente o desconfinamento; faremos naturalmente a reaproximação, sem pressa mas com muita saudade de voltarmos a ter caras conhecidas nos nossos dias solitários.
Queremos e voltaremos a estar juntos, pois só assim faz sentido.
Forte abraço a toda a Comunidade Dancenter, que, sem sabermos, é também em si, uma Família!
André Marques

Carta da Direção a todos da família Dancenter

Quis escrever este texto.

Quis escrever este texto porque sinto necessidade de refletir e escrever, sinto necessidade de vos ver, de comunicar com todos os que fazem parte desta comunidade, que vai muito além de quem dança ou de quem prepara o palco.

Estamos todos, acreditem, a viver um período em que recrudesce, dentro de cada um de nós, um sentimento de incerteza. Incerteza por nós, pelos nossos, pelos outros, pelo país, pelo que houve, pelo que não há e pelo que, inevitavelmente, há-de vir! A incerteza aloja-se progressivamente, nos interstícios do nosso pensamento, no vagaroso e pesado discorrer de cada dia, nos nossos hábitos, rotinas, nas nossas palavras e expressões, na forma como o nosso corpo responde ao peso de cada passo, na nossa espontaneidade, no nosso foco e na forma como avaliamos e percepcionamos tudo o que nos envolve. O que eu vejo, eu crio!

Vivemos com um sentimento de medo atrelado à força da vida, que a suspende em pequenos sorvos de esperança, a que urge e se renova quando percebemos que não podemos afrouxar o passo, que não podemos lamentar, procrastinar ou baixar os braços.

Numa altura de incerteza, em que o medo toma conta dos nossos pensamentos, estamos ainda mais condicionados, ainda mais inseguros, ainda mais no modo de sobrevivência. Mas eis que sobreviver é também parar, respirar, realinhar e andar em frente, é pôr em ação, é não arranjar desculpas para que nada, que já não é o que era, ainda seja mais do que se assim não fosse!

Mas em algum momento tudo isto vai passar e a vida vai continuar. A pergunta que se impõe é: onde vai estar cada um de nós? Quem fomos nós durante a crise? Como nos posicionámos e que papel desempenhámos, como pais, filhos, líderes, funcionários, bailarinos, professores? Que exemplo demos? Como nos preparámos para o momento em que já tudo tenha passado? O que fizemos para transformar a dor em algo positivo? Com quem contámos?

Quando tudo passar a Humanidade estará diferente, nós estaremos diferentes! Mas o que vai definir isso é o que, consistentemente, a cada dia, a cada hora que passa, formos capazes de fazer com todos aqueles que pudemos alcançar, tocar e inspirar. Este é o momento em que cada um tem que fazer a sua parte.

Sem certos ou errados, mas com convicções, preciso rever o meu sonho à luz da minha realidade, e gritá-lo ao Mundo, para ver quem fará eco desse grito!

Forte abraço,

André Marques